Em acrescento a outros números alarmantes, é importante ressaltar que a anemia é uma realidade bastante disseminada, com taxas expressivas de prevalência em todas as regiões do país. Estudos populacionais recentes desenvolvidos no norte, nordeste e sul demonstram prevalências de anemia ao redor de 40%, 50% e 70%, respectivamente.8-10
Uma análise de dados nacionais avaliou a deficiência de vitamina A em 3.417 crianças brasileiras, com idades entre 6 e 59 meses. A deficiência foi definida como retinol sérico < 0,7 µmol/L e observada em 17% da população estudada. O estudo também apontou que o estrato social das crianças tem um impacto significativo na adequação desse nutriente.11
O zinco também é um mineral essencial nesta fase da vida, com funções estruturais, bioquímicas e regulatórias cruciais ao desenvolvimento adequado, porém com elevada taxa de deficiência entre as crianças brasileiras. Um estudo de revisão da literatura avaliou 32 estudos relacionados à deficiência de zinco nesta faixa etária e observou que a deficiência deste mineral apresenta uma elevada variabilidade a depender da região estudada e de fatores individuais de cada criança e família envolvida, oscilando entre 0 e 74%, sendo que a maioria dos estudos reportam inadequações mais próximas a este valor máximo.12
A vitamina D também é um nutriente-chave no crescimento e mineralização óssea adequada através do controle direto no metabolismo do cálcio e fósforo. Um estudo multicêntrico avaliou 3.058 crianças em escolas públicas e privadas de 9 cidades brasileiras e observou que 90% da população estudada tinha uma ingestão inadequada de vitamina D, caracterizando um risco aumentado para a deficiência deste nutriente.13
Além dos micronutrientes mencionados, os ácidos graxos essenciais, especialmente o Ácido Graxo Docosahexaenoico (DHA), são nutrientes-chave no desenvolvimento infantil, porém, com elevada taxa de insuficiência nesta faixa etária. Um estudo demonstrou que as crianças brasileiras possuem baixo teor de DHA incorporado em seus eritrócitos (0,17%), o que representa uma concentração 15 vezes menor do que a encontrada em crianças canadenses e 25 vezes menor do que a observada em crianças chinesas.14
O déficit dos nutrientes mencionados, e de outros não abordados neste texto, além de ser um risco à saúde das crianças durante o curso da deficiência, também pode impactar no desenvolvimento neurocognitivo a longo prazo e em desfechos metabólicos na vida adulta. O desenvolvimento cerebral, por exemplo, é um dos mais afetados pela qualidade do ambiente em que a criança está inserida, sendo que estudos em animais demonstraram que a desnutrição e a anemia são fatores com impacto na cognição e emoção, que podem perdurar em fases futuras da vida.15,16 Dessa maneira, políticas públicas de acesso à alimentação adequada na primeira infância, bem como ações de educação nutricional de pais e crianças, são medidas fundamentais para que estas deficiências mais prevalentes e outras sejam prevenidas nesta fase crucial do desenvolvimento.4,16
O leite materno é o melhor alimento para os lactentes e até o 6° mês deve ser oferecido como fonte exclusiva de alimentação, podendo ser mantido até os dois anos de idade ou mais. As gestantes e nutrizes também precisam ser orientadas sobre a importância de ingerirem uma dieta equilibrada com todos os nutrientes e da importância do aleitamento materno até os dois anos de idade ou mais. As mães devem ser alertadas que o uso de mamadeiras, de bicos e de chupetas pode dificultar o aleitamento materno, particularmente quando se deseja manter ou retornar à amamentação; seu uso inadequado pode trazer prejuízos à saúde do lactente, além de custos desnecessários. As mães devem estar cientes da importância dos cuidados de higiene e do modo correto do preparo dos substitutos do leite materno na saúde do bebê. Cabe ao especialista esclarecer previamente às mães quanto aos custos, riscos e impactos sociais desta substituição para o bebê. É importante que a família tenha uma alimentação equilibrada e que sejam respeitados os hábitos culturais na introdução de alimentos complementares na dieta do lactente, bem como sejam sempre incentivadas as escolhas alimentares saudáveis. |
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